Aniceto de Menezes e Silva Júnior
11/3/1912 Rio de Janeiro, RJ
19/7/1993 Rio de Janeiro, RJ
Começou a vida de sambista no Bloco Mama na Burra e nas escolas Unidos de Rocha Miranda, Na Hora É Que Se Vê, Rainha das Pretas, União do Sampaio e Unidos do Riachuelo.
Por volta de 1935/1936, ingressou na Escola de Samba Prazer da Serrinha e passou a ficar, como ele disse, "albergado" na casa de Sebastião de Oliveira, o famoso Mulequinho, que viria a ser o primeiro presidente da Escola de Samba Império Serrano, quando esta foi criada em 1947. Embora fosse um dos fundadores do Império Serrano, transitava por outras escolas, especialmente a Mangueira. Era grande amigo de Carlos Cachaça e de Cartola. Este último, inclusive, construiu a casa em que passou a residir, na Rua Margarida Apolônio, em Nova Iguaçu.
Embora não tocasse instrumentos de sopro e nem de corda e não chegasse a ser um percussionista, era capaz de fazer ritmo no pandeiro para se acompanhar. Sua grande qualidade consistia em coreografar o jongo e em improvisar versos de partido-alto, apesar de não se julgar um bom jongueiro. Em compensação, tinha consciência de ser partideiro imbatível, considerado como tal por todos. Inspirado nos pontos de demanda do jongo, desenvolveu um tipo especial de partido-alto, dialogado entre o solista e a roda - provavelmente criação sua, já que não se tem notícia da existência de outros exemplos que não os cantados por ele. Há, pelo menos, duas descrições desse tipo de partido. A primeira, transcrita por Sérgio Cabral (O Globo - 12/02/1979): "Fiz um samba chamado "Inteligência" que é um teste para improvisadores. O samba faz perguntas e o pessoal tem que responder na rima. O refrão é assim:
Se os bichos são inteligentes
Por que não as criaturas?
Aí eu faço os pedidos e os outros vão respondendo:
- Me digam qual é
A pedra mais dura?
- Rapadura.
- Qual a defesa
Do banguela?
- Dentadura.
- Cite uma cidade
Lá no Oriente.
- Cingapura.
- Chegou a invernada de Olaria.
- É cana dura.
- Quando o malandro
Perde o conceito?
- Quando dedura.
- Quando a mulher
Engana o homem?
- Quando ela jura.
- A nossa mãe
Jurou ao nosso pai.
- Entretanto é uma boa criatura.
- Não me fale mal
Das mulheres.
- Fico invocado
E ninguém me segura.".
A segunda, descrita por Marília Barboza da Silva e Arthur Loureiro de Oliveira Filho, no livro "Cartola, os tempos idos": "O negro velho, carapinha branca, bigodões de algodão doce na cara de chocolate, ia só embalando a turma na magia das rimas:
Eu vou cantar agora
Porque já está...
Aniceto parava e repetia, pedindo resposta:
Porque já está?
Aí o pessoal atinava e respondia, completando a melodia e a rima intuitivas:
Na hora!
Aniceto, então, continuava:
Que o homem que é homem
Não?...
O coro, já agora alerta, ia só respondendo:
Não chora.
Aniceto começava a dialogar com o grupo, que até parecia coisa ensaiada, mas era improviso puro mesmo:
Ela se chama Aurora
E diz que já vai...
Todos emendavam logo:
Embora.
O negro velho ria satisfeito e ia em frente:
Urubu pra cantar...
E a resposta estava na cara:
Demora.
O partideiro então, com toda a malícia da raça estampada nas feições fortes, perguntava:
E a mulher do meu filho
É a ...
Metade dizia:
Aurora.
E o resto cantava:
Dora.
Aniceto agora se esbaldava. Sacudia severamente a cabeçorra numa negativa enérgica:
Não senhor, não e não
É a minha nora.
Tinha gente que chorava de tanto rir. O velho ia em frente, trinta, quarenta minutos, improvisando sem parar. Referia-se ao que estava acontecendo no momento, com versos criados no momento.".
Em 1977, Aniceto foi desafiado por um jovem sambista para uma disputa em improviso de versos de partido alto. A "porfia", como a denominava, teve lugar no Maracanã. Na quadra do Bloco Carnavalesco Cara de Boi, o rapaz contou com a ajuda da própria mãe. Ainda assim, a peleja não durou dez minutos e Aniceto passou o resto da noite improvisando sobre temas fornecidos pela platéia. Neste mesmo ano lançou o primeiro disco "Quem samba fica", no qual interpretou "Dora", composição do folclore carioca. Ainda em 1977 o Museu da Imagem e do Som lançou seu LP "O Partido-Alto de Aniceto & Campolino", feito em parceria com Nilton Campolino e produzido por Elton Medeiros, no qual iterpretou diversas composições de sua autoria, entre elas "Segredo de Tia Romana", "Um bocadinho só", "Zé ciumento", "Quem tem, tem", "Na volta do novelo" (c/ Bijuzinho) e "Raízes da África", composição na qual enumera e faz referência a vários rezadores como João Alabá e Aço Humano.
No ano de 1978, ao lado de Luiz Grande, Baiano do Cabral, Nelson Cebola, Arielson da Bahia, Preto Rico e Dedé da Portela, participou do LP "Os bambas do partido alto", no qual interpretou de sua autoria "Beberrão" (c/ Mulequinho) e "Apesar dos meus sessenta".
Em 1984, pela gravadora CID, lançou o LP "Partido alto nota 10", no qual contou com as participações especial de João Nogueira na faixa "Entrevista"; Dona Ivone Lara em "Quem é teu pai"; Clementina de Jesus na música "Dona Maria Luiza"; Martinho da Vila em "Desaforo", Roberto Ribeiro na faixa "Chega devagar" e Zezé Mnotta na música "Ginga de Yayá", todas de sua autoria. No disco também interpretou, também de sua autoria, "Partido alto", "É fogo", "Difícil", "Quando louvar partideiro", "És partideiro" e "Mulher na presidência". Na capa do disco João Nogueira declarou: "Aniceto é a memória brilhante, viva e atuante da música popular brasileira".
No ano de 1988, quando estava hospitalizado, foi homenageado no evento no Circo Voador, no Rio de Janeiro. Neste mesmo ano Beth Carvalho, no LP "Alma do Brasil", regravou "Beberrão" (c/ Mulequinho).
No ano de 2002, foi lançado o livro "Velhas Histórias, memórias futuras" (Editora Uerj) de Eduardo Granja Coutinho, livro no qual há várias referências ao compositor.
No ano de 2004 a cantora Tereza Gama lançou o CD "Aos mestres com carinho" (Selo Rio Fonográfico), no qual interpretou de sua autoria "Maria Madalena da Portela".
Sobre ele declarou Martinho da Vila: "Quando eu vejo Aniceto, sinto que estou olhando para a cultura negra do Brasil".

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MAI
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