A cantora Aracy de Almeida não foi apenas a intérprete do melhor da MPB. Ela sempre foi muito mais, considerada que era “o Samba em pessoa”. Aracy, no começo do século XXI, começa a ser objeto de várias homenagens, entre elas o lançamento de toda sua discografia e uma peça de teatro.
A coleção de 8 CDs duplos, fruto das pesquisas do colecionador Paulo Cezar de Andrade, é um tesouro fonográfico que abriga gravações de Aracy, que vão desde seus momentos iniciais (“Riso de criança”, de Noel Rosa e “Saudade de meu papai”, de Walfrido Silva e Roberto Martins), registradas em 1934, quando a cantora estreou acompanhada por Mestre Pixinguinha até os LPs maravilhosos da Elenco (Aluísio de Oliveira) dos anos 60, em que ela atua ao lado de Sérgio Porto e Billy Blanco. Ou seja, além de cada CD contabilizar o robusto número de 23 músicas em média, estão também transcritos todos os 8 LPs que Aracy gravou, inclusive o último, pouco antes de morrer em 1988, o raríssimo “Ao vivo e à vontade”, para a Continental.
É de pasmar a qualidade das músicas que Aracy escolheu para gravar. Para que se tenha uma idéia, ela reviveu algumas das mais preciosas jóias de Noel (compositor favorito e seu maior protetor no meio artístico), como “Palpite Infeliz” (1935), “X do Problema” (1936), “Eu sei sofrer” (37) e “Século do Progresso” (37). E, depois da morte do Poeta da Vila, o “Samba em pessoa” continuou honrando o padrinho lançando pérolas como “Camisa amarela” (Ary Barroso, 39), “Cuco” (Haroldo Lobo, carnaval de 40), “Fez bobagem” (Assis Valente, 42) e ainda “Saia do meu caminho” (Custódio Mesquita, 45), ou mesmo “Louco” (Wilson Batista, 46).
Aracy – com seu jeito descontraído e originalíssimo de ser e proceder – sempre viveu cercada de intelectuais nos anos dourados do Rio, a década de 50-60. Lembro-me de que certa vez o pintor Di Cavalcanti, em casa de quem no Catete eu estava, interrompeu uma reunião declarando solenemente: “Agora eu tenho que sair, porque marquei encontro no Lamas com a maior cantora brasileira de todos os tempos e, que vocês sabem muito bem que é a divina Araca”.
Aracy, aliás, sempre manteve fidelidade a seus amigos. Na década de 50, ela regravou quase todo o melhor de Noel, quando já ninguém mais se lembrava da música do poeta da Vila.
Esquecida nos anos 60 e 70, Aracy me telefonou certa noite para dizer que havia recebido convite para ser jurada de programas de tevê. “ – Araca, vai com calma. Você sabe que a máquina de fazer doido pode queimar o seu filme”. Ela me respondeu, como de hábito, com uma série dos mais afiados palavrões e resolveu ir em frente.
Quando Aracy morreu, em 1988, alguns obituários de jornais referiram-se ao fato de ela ser apenas uma das juradas do Sílvio Santos, omitindo-lhe a condição de deusa do canto popular que ela sempre fora.
Ricardo Cravo Albin

23
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