Se Bizet escreveu uma ópera chamada “Os pescadores de pérolas”, a MPB já se habituou a ter em Beth Carvalho a sua pescadora de pérolas. Só que as pérolas da nossa Beth são as jóias musicais que definem e qualificam o melhor da alma urbana carioca.
A Enamorada do Sambão, como a ela se referiu Martinho da Vila para dedicar-lhe um samba-homenagem, vem realizando o mais original e valioso levantamento dos compositores cariocas de raiz. Ou seja, aqueles que estão alojados nos morros, nas biroscas e nas agremiações carnavalescas, em geral esnobados pela burguesia, mais voltada para os valores estrangeiros, a ponto de considerá-los exóticos, quando não analfabetos e destituídos de valor permanente.
A essa cantilena preconceituosa e antipovo, além de abominável, Beth Carvalho jamais se curvou. Muito pelo contrário. E mais: ela construiu toda uma carreira – graças a Deus e à sua persistência – muito bem-sucedida, precisamente redescobrindo e gravando jóias de Cartola e Nélson Cavaquinho nos anos 70, ou Noca da Portela (com uma maravilha chamada “Virada”), ou ainda lançando o pessoal do Cacique de Ramos e Fundo de Quintal – onde foi descobrir Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Almir Guineto, Luiz Carlos da Vila, entre outros cobras. Nos anos 90 a Beth revelaria Marquinhos PQD, Sombra e Sombrinha, Marquinhos de Oswaldo Cruz.
Tempos atrás, estive conversando com a velha amiga – que, uma vez mais, me comoveu ao segredar-me ao ouvido: “Você nem imagina a surpresa que tenho este ano. Já estou gravando meu disco novo e vou lançar uma novidade que vai balançar o coreto. Imagina que fui descobrir um talentão chamado Xande de Pilares, autor de um sucesso nas bocas de samba, ‘Meu samba de arerê’, em co-autoria com Arlindo Cruz e Mauro Júnior. Xande é uma revelação dos pagodes do Arranco de Engenho de Dentro, que é o lugar mais quente da zona norte, junto com o pagode da Tia Doca, em Oswaldo Cruz, ou o Cafofo da Surica, em Madureira, ou mesmo os Candongueiros de Pendotiba.”
Beth, em poucas palavras, me desenhou um mapeamento sóciocultural da cidade.
Retruquei, por pura provocação: “Mas, Beth, nessa altura do campeonato, com o pagode mauricinho e o porno-axé a todo vapor, você ainda tem coragem de lançar compositores novos?”
Beth enrubesceu, as pupilas se dilataram e, veemente, me dardejou: “Só vou deixar de acreditar na força do samba carioca quando morrer. Disco meu – você nem tenha dúvida – não existe se não apresentar gente nova. Gente nova que procuro e busco como se estivesse numa missão religiosa. São meses a fio ouvindo centenas de fitas, assuntando e sabendo do que há nas bocas de todas as regiões do Rio, de norte a sul!”
Não, Beth, ninguém de boa-fé poderá jamais ter dúvida sobre suas nobres intenções...
Ricardo Cravo Albin

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