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Blecaute

Otávio Henrique de Oliveira
5/12/1919 Espírito Santo do Pinhal, SP
9/2/1983 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Mesmo em inglês, a expressão “black-out” sintetiza hoje um dos mais abomináveis preconceitos raciais, travestido de piedosa concessão. “Black-out” significa preto por fora, mas branco – em alma, é claro – por dentro.

Quando, contudo, o cantor paulista Otávio Henrique adotou o nome artístico de Blecaute

(já abrasileirando o termo), o nome não parecia ter essa carga tão virulenta de achincalhe. Fosse assim, o preto retinto Otávio Henrique teria recusado o pseudônimo, sugerido pelo célebre Capitão Furtado, em seu ouvidíssimo programa radiofônico na Difusora paulistana.

Pelo sim, pelo não, Blecaute acautelou-se contra achincalhes futuros e logo se promoveria a General (da Banda e do Carnaval), a partir do sucesso triunfal que foi o samba “General da Banda” (de Sátiro de Mello e Tancredo Silva) no carnaval de 1949.

O título acabaria-se incorporando a ele de tal modo, que Blecaute não só envergaria a vistosa fantasia de General da Banda nos carnavais sub seqüentes como chegaria até a desfilar, antes do começo dos saudosos desfiles das escolas de samba na Presidente Vargas, como uma “persona” do carnaval carioca. Ele integrava, a cada ano, a patusca corte da folia, lado a lado do Rei Momo, Rainha Moma, suas Princesas e do Cidadão Samba.

Fiz-me amigo do Blecaute através da cronista Eneida, quando gravei para o MIS a íntegra do show “Carnavália” (dois elepês, que este ano sairão em CD). O espetáculo ficou quase um ano em cartaz (1968) no Café Teatro Casa Grande e ali, apresentados pela insuperável dignidade de Eneida, os cantores Marlene (que voltava à cena artística), Nuno Roland e Blecaute fizeram o melhor show de carnaval a que o Rio jamais assistiu. Eneida não escondia seu carinho por Blecaute e, entre suas falas, muitas vezes me confidenciava: “Olha que elegância de porte e que charme de sorriso.” E para o público vociferava: “Observem como Blecaute representa a autêntica alma do povo, quando canta esse hino de protesto que é o ‘Pedreiro Waldemar’”. A cronista referia-se ao samba antológico de Roberto Martins e Wilson Batista, que disparava: “Você conhece o Pedreiro Waldemar/ Não conhece, pois eu vou lhe apresentar/ De manhã cedo pega o bonde Circular/ Faz tanta casa e não tem casa pra morar.”

Blecaute criou o “Pedreiro” no mesmo ano de 1949, quando triunfou com o General. Ou seja, uma no cravo e outra na ferradura. Daí, até a sua morte (1983), o Monsieur Blecaute — assim também era chamado nos anos 50 pelo César de Alencar, na Rádio Nacional — colecionou sucessos e mergulhou fundo no espírito popular. Quem não lembra da vigarice sempre atual da “Maria Candelária” (“É alta funcionária/Saltou de pára-quedas/ Caiu na letra O”) ou da “Maria escandalosa” (“Desde criança sempre deu alteração/ Na escola não dava bola/ Só aprendia o que não era da lição”). Dos mesmos autores, Klecius Caldas e A. Cavalcanti, Blecaute fez o Brasil cantar e rir com “Piada de salão” (“É ou não é piada de salão/ Se acham que não é / Então não conto não”) ou “Papai Adão” (“É que é o tal/ Hoje é Eva quem manobra / E a culpada foi a cobra”).



Ricardo Cravo Albin

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