A voz de Gal Costa reflete no seu cristal os (des)caminhos da música brasileira nos últimos 30 anos. Se o álbum inicial – “Domingo”, LP dividido com Caetano Veloso em 1967 – retratou e fiel discípula de João Gilberto, os primeiros discos solos traduziram toda a efervescência do movimento tropicalista do qual Gal foi um dos ícones. Eles representam a fase de desbunde da época (fins dos anos 60 e começo dos 70), sintetizada com maestria no álbum duplo ao vivo “Fatal-Gal a Todo Vapor”. Um marco de 1971 e da carreira de Gal.
Depois de breve período de transição (enriquecido, em 1976, com um álbum dedicado à obra de Dorival Caymmi, quando ainda não era moda gravar songbooks no Brasil), Gal encontraria o tom popular pelas mãos e cabeça do empresário Guilherme Araújo. Assumindo uma imagem mais brejeira e carnavalesca, a cantora baiana personificaria a “Gal Tropical”. O repertório, capitaneado por frevos e marchas, fez de Gal a grande vendedora de discos que ela, até então, nunca tinha sido. Os álbuns “Gal Tropical” (1979) e “Fantasia” (1981) sã os marcos desta época. Passado o período “frevo-axé”, Gal embarcaria numa fase artisticamente menos criativa. Para manter as vendagens de seus discos em alta, ela gravaria baladas românticas de compositores populares. “Um Dia de Domingo” – parceria de Michael Sullivan e Paulo Massadas, gravada por Gal em dueto com Tim Maia – liderou as paradas ao longo de 1986 (foi lançada em fins de 1985) e confirmou a eficácia mercadológica da opção da cantora naquele momento.
Nos anos 90, já em baixa no mercado fonográfico, Gal retomaria a inquietude de seu histórico começo de carreira em álbuns sofisticados como o “Sorriso do Gato de Alice”. Mas o sucesso popular viria somente com o retrospectivo álbum “Acústico MTV”, de 1997. E Gal fecharia a década (e o século) voltando às origens bossa-novistas em álbum dedicado ao repertório de Tom Jobim. Era a reminiscência da Gracinha, a menina baiana que decidiu ser cantora ao ouvir João Gilberto.
Mauro Ferreira

25
MAI
Aniversariantes
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