Hermeto Pascoal é albino, baixinho, gordinho e quase cego. Em compensação é gênio. E gênio com G maiúsculo por duas razões. Primeiro porque ele – só ele – é capaz de inventar os sons mais originais do mundo para recriar a música. E depois porque ele administra esses sons com extrema sutileza, elegância e precisão.
Ou seja, Hermeto é o maestro de si mesmo, um homem-orquestra. O bruxo das Alagoas faz tudo. Ou seja, compõe músicas e toca todos os instrumentos. E quando eu me refiro a instrumentos, em se tratando de Hermeto, vamos logo dividi-los em duas partes. Os instrumentos tradicionais – como piano, cavaquinho, flauta, bombardino, violão, órgão e mais 15 outros, tais como sax soprano, sanfona etc. – e os instrumentos inventados pelo gênio do grande músico, que tira seus sons estranhos (e lindos, podem crer!) de garrafas plásticas, copos com água, máquina de costura. É muito? Não, porque tudo que Hermeto tem à sua frente pode virar som no minuto seguinte, como bomba de encher bola de gás e até mãos passando nas roupas do corpo.
Aliás, o cheiro do Brasil e o de suas grandes veias musicais está presente nos discos de Hermeto.
Tempos atrás, durante um especial gravado na Rádio MEC, Hermeto me comoveu quando falou das crianças.
E por uma razão muito simples: ele se orgulha de preservar a simplicidade das crianças, segundo ele o caminho mais direto para o encontro da divindade ou de Deus.
E Hermeto – compreendi isso agora – conseguiu o impossível, que é ser um arauto da modernidade, da invenção, do passo à frente e ser de uma simplicidade cativante, de um despojamento de que só mesmo ou os gênios ou os santos são capazes.
Se você, ó leitor incrédulo, pensar que Hermeto é apenas um produto exótico e circense, pode ficar certo de que a consagração internacional do nosso homem-orquestra está a indicar exatamente o oposto.
Ele me falava outro dia que sua carreira internacional (começada a partir de 1970) só lhe trouxe alegrias, como as de ser gravado por Miles Davis, seu fã número um e que lhe abriu as portas do jazz mundial.
“Pois é, o Miles gostou tanto que queria gravar todo um elepê só comigo e com músicas minhas. Mas eu tive que voltar para fazer um sonzinho lá no Jabour (distante subúrbio carioca) e me mandei. Por isso não fiz.”
Esse tipo de procedimento, descontraído e franciscano, só pode ser mesmo o de um gênio. Ou você duvida?
Ricardo Cravo Albin

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