Numa das reuniões do Conselho de Música Popular que eu presidia no MIS dos anos 60, convidei o Jacob para participar da mesa como secretário-geral. Jacob envergava uma camisa listrada bem italiana, o que me levou à asneira de fazer uma brincadeira de certo mau gosto: “E agora, senhores, diretamente de Veneza, o gondoleiro Jacob del Mandolino!”
Mais zangado que de bom humor, o grande músico aproveitou para fazer um discurso quase irado, apenas para reafirmar os seguintes pontos: 1) ele se orgulhava de só tocar sambas e chorinhos; 2) ele se considerava ainda mais nacionalista que o Ary Barroso; 3) e, finalmente, ele até preferia que o chamassem de Zezinho ou Mané do Bandolim em vez do hebraico Jacob.
Jacob do Bandolim era exatamente isso: uma bomba de talento e gênio a explodir, movida por qualquer coisa capaz de lhe provocar emoção.
Nada lhe acendia tão intensamente o lendário pavio curto que o simples ato de tocar o seu minúsculo instrumento, menor ainda quando empunhado por aquele gigante de ventre avantajado.
Fui testemunha de vários dos seus grandes momentos nos anos 60: o primeiro infarto, ao meu lado no Clube de Jazz e Bossa; as reuniões acaloradas no nosso conselho de MPB; a briga com o Luperce Miranda. Desses acontecimentos todos não posso deixar de lembrar aquele que gerou a edição dos históricos elepês que eu, pessoalmente, produzi a partir do show de Elizeth, Zimbo e Jacob para o MIS, no Teatro João Caetano. Jacob simplesmente não admitia que os discos saíssem pela gravadora de Elizeth. O Jacob queria porque queria que a RCA, de que ele era contratado, editasse os discos.
Dois meses depois de um grande imbróglio, quem ganharia a questão? Jacob, naturalmente, que dobrou tudo e a todos. Por causa de seu vozeirão, sua potência e insistência. Mas, sobretudo, pelo gênio avassalador que todos nele reconhecíamos.
Ricardo Cravo Albin

26
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