Enquanto cursava Engenharia em Ouro Preto, no início dos anos setenta, o descendente de libaneses João Bosco era um dos poucos violinistas locais avesso à cantilena bucólica das rodas mineiras. Compartilhava do gosto pela divisão rítmica vigorosa que tanto o samba de breque quanto o jazz mais acentuado sublinhavam. Guiando os dedos da mão esquerda pelo território das harmonias dissonantes da Bossa Nova, não perdia de vista o experimentalismo de Marlos Nobre e nem a brejeirice de Ernesto Nazareth. O espectro sonoro que distinguia já chamara a atenção de Vinícius de Morais, de quem fora parceiro ainda calouro. O talento para a composição de melodias faladas a tornarem-se clássicas seria aprimorado ao longo dos anos, através de uma intensa e produtiva associação com o letrista Aldir Banc. A obra que realizaram juntos, marcada por uma originalidade sempre renovada, rendeu destaques do repertório de intérpretes de primeira grandeza. Elis Regina imortalizou os sambas “O Bêbado e o equilibrista” e “Mestre –sala dos Mares”, os boleros “Falso Brilhante” e “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, entre outras canções da dupla. Clementina de Jesus, Cauby Peixoto e Ângela Maria também buscariam na obra de João Bosco e Aldir Blanc desafios para o seu canto.
Tendo consagrado um estilo pessoal como compositor e intérprete de suas canções, João Bosco seguia sequioso por novidades. Musicando letras de Waly Salomão e Antonio Cícero, chegou a um dos trabalhos mais impactantes de sua carreira, o álbum “Zona da Fronteira”. O trabalho entusiasmou as novas gerações e abriu as portas para que João Bosco fosse o primeiro nome da MPB a gravar um especial acústico para a MTV. Na apresentação para a emissora especializada em videoclipes, o mineiro engendraria uma peça capaz de sintetizar parte de sua formação e de sua contribuição para a música popular. Pinçando características semelhantes de três composições pertencentes a épocas e gêneros distintos, João Bosco aproximou Noel Rosa (“Fita Amarela”) dos Beatles (“Eleanor Rigby”) e de sua própria obra (“Trem Bala”). A fusão resume bem a inventividade de um autor capaz de não só produzir clássicos, mas também de reinventá-los.
Celso Masson

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