Muita gente boa – ou melhor, nem tão boa assim – considera um exagero dizer-se que este país não tem memória. Eu digo e insisto: não tem mesmo! Querem uma prova provada, com certidão, testemunhas e tudo? O desconhecimento e silêncio que este país impôs a Laurindo de Almeida, um dos maiores compositores, músicos e personalidades brasileiras em toda segunda metade do século XX.
A memória de Laurindo é tão valiosa, que Tom Jobim, na última vez que o vi (em almoço que duraria mais de três horas na Plataforma), abriu a conversa falando do Laurindo, nem me lembro a pretexto de que: “ – O Brasil não gosta mesmo de quem faz sucesso lá fora. O Laurindo é respeitadíssimo pela nata da música americana, e aqui, “babau”. Eu mostrei há pouco o “Guitar from Ipanema “(LP gravado em Nova York, que lhe valeu o Grammy em 1964) a um jovem músico que me perguntou que Laurindo era esse...” Laurindo, aliás, morreria meses depois do Tom (26/7/95), só que em Los Angeles, onde morava e era considerado um músico do primeiro time. Afinal, havia composto para mais de 800 trilhas de filmes em Hollywood.
Laurindo de Almeida havia chegado à América quarenta anos antes, quando se fecharam os cassinos cariocas em 1945. Mas já no decênio de 1935 – 45, ele construiria sólida reputação no Rio, a ponto de ter participado (1940) das célebres gravações feitas por Stokowski com Pixinguinha, Donga, Cartola e outros cobras. Além de ter músicas suas gravadas pelo Olimpo: Carmem Miranda, Orlando Silva e Aracy de Almeida.
Nos Estados unidos, Laurindo começou por cima, como guitarrista titular da orquestra Stan Kenton, o que não era pouco, dando-lhe fama e prestígio. A ponto de formar seu próprio trio, com o qual gravaria discos importantes, ao lado de nomes como o saxofonista Bud Schank ou o Modern Jazz Quartet, do pianista John Lewis, com quem excursionaria à Europa em 1963 e 1964. Não foi à toa que o crítico Leonard Feather o incluiu em sua Enciclopédia do Jazz – de resto, o único brasileiro.
Estive em 1964 com Laurindo no inverno gelado de Nova York. Com ele percorri o melhor roteiro de jazz da cidade, onde a bossa-nova de João Gilberto e Tom já estava na crista da onda. Ouvia quase todas as noites – e deles me fiz amigo, por conta do Laurindo – o baixista Charlie Mingus e o citado John Lewis, que devotavam ao brasileiro um respeito comovedor. Portanto, ninguém me contou que o nosso guitarrista era reverenciado pelo jazz: eu próprio comprovei isso.
Como comprovei, aqui mesmo no Rio, seu sucesso no FIC (1967), convidado do Marzagão e Eumir Deodato. Muito maior, de resto, junto às personalidades internacionais do Festival que aos músicos brasileiros. Lembro-me que, durante o FIC, o Laurindo foi convidado a fazer um concerto na Sala Cecília Meirelles. Pois bem, a nata dos figurões internacionais foi ouvi-lo. Músicos, cantores e compositores brasileiros? Contavam-se nos dedos de uma mão, e nem assim todos.
A frase cortante de Tom Jobim, portanto, sempre procedeu, em gênero, número e grau.
Ricardo Cravo Albin

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