Gonzaga não é só o melhor dentre todos os cantores de alma sertaneja, mas também o mais importante cantor-músico-compositor que o nordeste já produziu. Exagero? Pelo contrário, estou sendo até muito reservado em lhe avaliar a justa dimensão. Até porque Gonzaga não é só gênio do nordeste, é gênio da MPB, na mesmíssima dimensão de Ary Barroso, Pixinguinha, Tom Jobim ou Chico Buarque. Mas isso são outros quinhentos, e essa história de comparação só me dá aborrecimentos, dos quais nunca tenho o bom-senso de fugir.
Para que se entenda a réstia de luz que sempre coroou a cabeça (chata, de bom pau-de-arara) do nosso Gonzaga, não se pode deixar de levar em consideração a persona, o personagem extraordinário que ele jogava com maestria em todas suas insuperáveis criações como cantor e sanfoneiro. Gonzaga não só representou, ele foi a personificação de um país ainda alegre e tragicamente exuberante durante trinta anos, 1945 a 1975, pelo menos. Ninguém o fez com mais força e mais visceralidade, nem antes dele (só abro exceção para Carmem Miranda), nem depois dele.
O grande artista não deixa de ter razão, porque nos anos 30, e subseqüentes, o eixo Rio-São Paulo sempre produziu três repertórios anuais: o carnavalesco, o junino e o meio do ano (que era todo o resto, apesar da impropriedade do termo que excluía, obviamente, o repertório junino).
Só que depois que chegou para a MPB como um foguete a partir de 1945, quando começou a cantar suas próprias músicas, Gonzaga se fez também o melhor intérprete do São João no Brasil. E por quê? As festas juninas, que tinham o forte numa música inspirada nas tradições do campo, adotou Gonzaga como modelo perfeito. E as rancheiras, além dos xotes, baiões e cocos, substituíram as marchinhas da época de ouro no período junino.
Portanto, esse modismo do forró de hoje tem suas melhores raízes plantadas em Luiz Gonzaga, mesmo antes dos anos 50.
Melhores? Vamos ser ainda mais claros e radicais: o certo é a palavra única. Gonzaga foi, com toda a certeza, a árvore, o sólido jacarandá, cujos galhos são todos os outros.
Trocando em miúdos: o pai do forró e pai dos filhos do forró. Mas sem qualquer responsabilidade, é claro, com as ervas daninhas que os passarinhos fazem crescer na copa da árvore. Essa escória, que sempre infesta o mercado fonográfico, nada tem a ver com a nobreza da árvore e de seus galhos.
Ricardo Cravo Albin

11
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