A voz podia não ter a limpidez, a extensão e até a beleza da de Francisco Alves. A bossa e a clareza da dicção de um Sílvio Caldas também provavelmente o superava. Mário Reis, com sua graça, suas divisões inventivas e o esperto uso da voz pequena totalmente adequada aos microfones foi, possivelmente, mais influente. Mas o fato é que, com todas as características acima combinadas, Orlando Silva foi o maior cantor brasileiro de seu tempo e, até hoje, é o mais lembrado como a voz que estabeleceu definitivamente uma forma brasileira e moderna de se cantar. Não é à toa que João Gilberto, o cantor que pouco mais de 20 anos depois revolucionaria tal modo de cantar, atribui a Orlando a sua paternidade vocal e estética.
Há, contudo, dois Orlandos: o dos anos de ouro, de 1936 a 1942, o perfeito, o Cantor das Multidões, o de repertório impecável e performances idem, registrados em 78 rpm pela gravadora Victor (hoje BMG); e há o Orlando posterior, já afetado pelo consumo de drogas, por um processo de decadência profissional e pessoal que o faz quase uma caricatura de si mesmo. (Abre-se o parênteses para esclarecer a quem ouvir o tal Orlando decadente: mesmo assim tratava-se de um fora de série, que perdia apenas para o grande Orlando do auge).
Orlando Silva ia bem nos sambas fornecidos pelos melhores da época: Noel Rosa (“Pela primeira vez”, “A dama do cabaré”), Bide e Marçal (“A primeira vez”), J. Cascata e Leonel Azevedo (“Juramento falso”), Claudionor Cruz e Pedro Caetano (“A felicidade perdeu seu endereço”), Dunga (“Chora cavaquinho”), entre tantos outros. Caracterizava-se pela emissão perfeita, a respiração, a bossa, a segurança nas divisões rítmicas. Ia igualmente bem nas valsas e canções, na brejeirice de um “Mágoas de caboclo” à modernidade de um “Nada além”. A voz não empostada (como era o padrão na época), sem que a beleza das melodias se perdesse, tornava Orlando imbatível no gênero.
A partir do sumiço de 1942, Orlando passou o resto da vida se repetindo. Não importava: o gênio já estava estabelecido nos mais importantes seis anos da história do canto popular brasileiro.
Hugo Sukman

27
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