Poucos hoje se dão conta. Mas, mesmo antes de aparecer, nos anos 30, gente do porte de Noel Rosa, de Ataulfo Alves, de Wilson Batista ou Geraldo Pereira, o samba carioca teve uma grande estrela que conquistou o país. Ele se chamou José Barbosa da Silva, mas entrou para a história com o apelido de Sinhô, o Rei do Samba. Mas como Rei do Samba, se o samba foi criado pelo Donga, com assistência direta de bambas como João da Bahiana, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres?
O fato é que o Sinhô apareceu como um raio. Mas um raio tão fugaz que só duraria de 1919 (quando estréia com “Pé de anjo” – lançando o grande Francisco Alves) até 1930 (quando morre inesperadamente a bordo da barca da Cantareira). Sinhô deixaria uma legião de fãs, entre eles o não menos grande Mário Reis, seu aluno de violão e seu lançamento como cantor em 1929, com o célebre “Jura”.
Aliás, o poeta Manuel Bandeira, gostando muito de Sinhô, chegou a ir a seu enterro no Rio. “Uma perfeita cena carioca, um bafafá, um evento surreal”, entusiasmava-se o poeta. “Porque apareceram mais de seis viúvas a disputar o morto, políticos e jornalistas se misturavam com rufiões e malandros temerários.”
Contou também o cronista Jotaefegê que Sinhô forçou a barra para ser reconhecido como o Rei do Samba, passando a dedicar muitas de suas composições a jornalistas e intelectuais, que, assim, mais facilmente o incensariam. José do Patrocínio Filho, ao vê-lo em qualquer esquina do Rio, não fazia por menos: ajoelhava-se e lhe pedia, com alvoroço, a bênção.
Já Pixinguinha, Donga e Heitor dos Prazeres torciam discretameante o nariz quando alguém lhes pedia para falar de Sinhô. Explico: com Pixinguinha (e sua turma, inclusive o irmão China) Sinhô manteve uma polêmica de que resultaram o “Pé de anjo” (provocação de Sinhô contra o China) e “Já te digo” (resposta de Pixinga ao desafeto, chamando-o de velho e desdentado).
E com Heitor, a coisa engrossou um pouco mais, quando ele reivindicou a autoria do “Gosto que me enrosco”, escrevendo para Sinhô um samba-acusação chamado
“Sinhô ...dos meus sambas”.
Ao que o espertíssimo pianeiro (era um bom pianista de salão, segundo Donga) retrucou com uma frase célebre: “Samba é como passarinho que voa, é de quem pegar primeiro.”
Por tudo isso – e também porque a obra de Sinhô é, basicamente, um relevante resgate de crônicas dos anos 20 — ele se torna fundamental.
O nosso Sinhô do samba pode ter sido polêmico e foi. Mas que era um bamba, isso nem se discute.
Ricardo Cravo Albin

27
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