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Sinhô

José Barbosa da Silva
8/9/1888 Rio de Janeiro, RJ
4/8/1930 Rio de Janeiro, RJ

Crítica

Poucos hoje se dão conta. Mas, mesmo antes de aparecer, nos anos 30, gente do porte de Noel Rosa, de Ataulfo Alves, de Wilson Batista ou Geraldo Pereira, o samba carioca teve uma grande estrela que conquistou o país. Ele se chamou José Barbosa da Silva, mas entrou para a história com o apelido de Sinhô, o Rei do Samba. Mas como Rei do Samba, se o samba foi criado pelo Donga, com assistência direta de bambas como João da Bahiana, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres?

O fato é que o Sinhô apareceu como um raio. Mas um raio tão fugaz que só duraria de 1919 (quando estréia com “Pé de anjo” – lançando o grande Francisco Alves) até 1930 (quando morre inesperadamente a bordo da barca da Cantareira). Sinhô deixaria uma legião de fãs, entre eles o não menos grande Mário Reis, seu aluno de violão e seu lançamento como cantor em 1929, com o célebre “Jura”.

Aliás, o poeta Manuel Bandeira, gostando muito de Sinhô, chegou a ir a seu enterro no Rio. “Uma perfeita cena carioca, um bafafá, um evento surreal”, entusiasmava-se o poeta. “Porque apareceram mais de seis viúvas a disputar o morto, políticos e jornalistas se misturavam com rufiões e malandros temerários.”

Contou também o cronista Jotaefegê que Sinhô forçou a barra para ser reconhecido como o Rei do Samba, passando a dedicar muitas de suas composições a jornalistas e intelectuais, que, assim, mais facilmente o incensariam. José do Patrocínio Filho, ao vê-lo em qualquer esquina do Rio, não fazia por menos: ajoelhava-se e lhe pedia, com alvoroço, a bênção.

Já Pixinguinha, Donga e Heitor dos Prazeres torciam discretameante o nariz quando alguém lhes pedia para falar de Sinhô. Explico: com Pixinguinha (e sua turma, inclusive o irmão China) Sinhô manteve uma polêmica de que resultaram o “Pé de anjo” (provocação de Sinhô contra o China) e “Já te digo” (resposta de Pixinga ao desafeto, chamando-o de velho e desdentado).

E com Heitor, a coisa engrossou um pouco mais, quando ele reivindicou a autoria do “Gosto que me enrosco”, escrevendo para Sinhô um samba-acusação chamado

“Sinhô ...dos meus sambas”.

Ao que o espertíssimo pianeiro (era um bom pianista de salão, segundo Donga) retrucou com uma frase célebre: “Samba é como passarinho que voa, é de quem pegar primeiro.”

Por tudo isso – e também porque a obra de Sinhô é, basicamente, um relevante resgate de crônicas dos anos 20 — ele se torna fundamental.

O nosso Sinhô do samba pode ter sido polêmico e foi. Mas que era um bamba, isso nem se discute.



Ricardo Cravo Albin

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